A edição deste mês da revista Rolling Stone Brasil estampa em sua capa mais uma lista, para celebrar seu terceiro aniversário. Desta vez, é a das 100 Maiores Músicas Brasileiras, escolhidas por críticos dos quatros cantos do país. E, mais uma vez, abre a discussão sobre a necessidade de se fazer uma lista como esta. Sim, ninguém duvída que Carinhoso (Pixinguinha), Construção (Chico Buarque), Águas de Março (Tom Jobim), Asa Branca (Luiz Gonzaga), Mas Que Nada (Jorge Ben), Chega de Saudade (João Gilberto), Panis Et Circensis (Mutantes), Detalhes (Roberto Carlos), Canto de Ossanha (Baden Powell/Vinicius de Moraes) e Alegria, Alegria (Caetano Veloso) estão entre as dez maiores músicas brasileiras da história. Pode ser que você não concorde com uma ou outra posições, presenças ou ausências, mas num geral é mesmo uma lista incontestável. O que abre uma discussão ainda mais profunda: porque não se fazem mais canções como antigamente?
Em qualquer conversa de mesa de bar com algum saudosista musical, é bem provável que esta pergunta seja feita. É bem provável também que em algum momento você já tenha tido um rampante de modernidade e dito “Não é bem assim. Aquela música X, do cantor Y, poderia tranquilamente figurar nesta lista” para anos depois perceber a besteira que fez. Mas será mesmo besteira? Será que realmente não se fazem canções como antigamente?
E uma longa discussão que envolve teoria musical, composição e coisas mais técnicas. Existe uma corrente que insiste na hipótese de não ser mais possível se criar algo realmente novo na música, tecnicamente falando. Para eles, todas as progressões de acordes já teriam sido feitas e, a partir de então, o que existe é uma espécie de reciclagem melódica. Alguns adeptos desta teoria vão além e dizem que, por conta disto, artistas que trabalham com remixes são os mais instigantes da atualidade, exatamente porque não insistem em criar algo novo, mas assumem esta reciclagem. Pare e pense: quantas vezes você ouviu uma canção no radio e achou parecida com aquela outra? E quantas vezes você ouviu um dj remixar uma música bastante conhecida de tal forma a transformá-la em outra completamente nova?
Do outro lado da moeda estão os que não acreditam nesta teoria e insistem no fato de que é possível criar coisas absolutamente novas nos dias de hoje. Para comprovar, citam artistas como Radiohead e outros da mesma estirpe, capazes de inventar gêneros musicais, se assim for preciso. Para estes estudiosos, a musica é mesmo uma fonte inesgotável. Ou, como bem disse Lô Borges em uma entrevista há alguns anos, “a música está aí, pelo ar. Eu sou apenas um agente catalisador, que capta estas vibrações e as transcreve.”
E onde fica nossa pobre Música Popular Brasileira nisto? Condenada a viver dos mesmos artistas e músicas do passado, sem se renovar? Para tentar entender onde está o problema, se é que ele existe, proponho um exercício. No próprio site da Rolling Stone Brasil existe uma enquete para você votar na canção de sua preferência dentre estas dez ou indicar alguma outra. Eu já entrei, pensei, refleti e cheguei à conclusão que votaria em Águas de Março. Mas poderia votar também em Carinhoso ou Construção. Talvez incluísse Acabou Chorare entre as dez. Mas definitivamente meus olhos estariam voltados para o passado, simplesmente por não acreditar que nada que foi feito nos ultimos 25 anos neste país supera em qualidade estas obras imortais da nossa música.