TEMPESTADE E ARCO-ÍRIS

 

Não é de hoje que grupos com músicos virtuosos chamam a atenção do público. E não por acaso o Rush ultrapassou a barreira dos trinta anos de estrada, arrebanhando sempre mais e mais fãs a ponto de conseguir a maior platéia de sua carreira nos shows que fez no Brasil, em 2002. Na ocasião, devem ter ficado especialmente impressionados com a multidão de fanáticos tentando “cantar” os solos e passagens instrumentais de YYZ. Antes que digam que essa adoração por músicas de ritmo quebrado, solos de guitarra e baixos galopantes é coisa do passado, o power trio inglês Muse acaba de lançar seu quinto álbum de estúdio – The Resistance – e desde que deu as caras no mundo pop, com o cd Showbizz(1999)quintonsdos com a multidão de fadiser algo inadi palco como sempre foi, a nova turna dispens Living Colour.oucas bandas faziam , é outro que tem só aumentado o seu clube de seguidores.

No meio do caminho entre o Rush e o Muse, num período em que o rock vivia em franca decadência, no mundo inteiro (antes do grunge recolocar as coisas nos seus devidos lugares), poucas bandas faziam jus ao legado construído, desde Chuck Berry (ou até de Robert Johnson, se quiserem partir do momento embrionário). Uma delas, porém, preferiu aparecer vestindo roupas esportivas bem coloridas, ao invés de tomar o lugar das mulheres nos salões de beleza, com seus cabelos impecáveis e permanentes que (graças aos céus!) permaneceriam pouco em cena e na memória dos verdadeiros amantes do rock. Só que o visual não era realmente o que importava naquele quarteto de negros que surgia. E pode ter certeza que não deve ter sido o elemento que mais impressionaria o futuro padrinho Mick Jagger, presente num dos shows da tal banda estreante chamada Living Colour. O rock precisava de algo mais hard do que um bando de marmanjos pálidos travestidos de moças, pintando as unhas, passando batom e jurando que a distorção das guitarras, caras e bocas, e clipes ridículos corrigiria aquela papagaiada toda. Confrontar o Living Colour com Motley Crue, Poison ou Ratt, naquele momento “hair metal” foi como soltar um rottweiler feroz num canil de poodle. Em primeiro lugar, o leque sonoro de Vernon Reid e cia. era muito mais amplo e menos maçante que a o dos outros representantes do hard(?) rock. As camadas de peso do Living Colour vinham acompanhadas de elementos do jazz, funk, blues, indo parar até em ritmos mais sacolejantes como a salsa. E o melhor de tudo é que o virtuosismo dos seus instrumentistas não funcionava como malabarismo circense. Servia para rechear às canções do álbum de estréia Vivid com arranjos pulsantes e extremamente criativos. O conjunto de canções poderosas dessa estréia, entre elas, Cult of Personality, Middle Man, Open Letter (To a Landlord), Desperate People e Glamour Boys continua imbatível. O grupo ainda lançou um bom cd (Time’s Up) e um ep (Biscuits), antes de enfrentar sua fase negra(!), no mal sentido! Acabou se dissolvendo um ano após o lançamento do irregular Stain(1993), disco que mais chamou atenção pela cover de Sunshine of your Love do Cream, presente como faixa bônus do cd e incluída na trilha do filme True Lies. Uma década separou esse último suspiro da primeira fase da que veio a seguir puxada pelo cd Collideoscope, já em 2003. Repetindo a baixa no lado autoral, duas covers se destacaram entre as demais – uma de Back in Black do AC/DC e outra de Tomorrow Never Knows dos Beatles, ambas ultra dispensáveis.

O trabalho mais recente – o quinto de estúdio da banda - saiu há menos de um mês. The Chair and the Doorway, entretanto, não deve mudar muita coisa na história discográfica do Living Colour. O que importa é que o grupo continue como sempre arrasador em cima do palco (e é quase impossível pensar em apresentações mornas com gente como Corey Glover, Vernon Reid, Doug Wimbish e Will Callhoun, sugando tudo o que pode dos seus instrumentos). Sendo assim, o show dessa mini turnê, que passa por Beagá, neste domingo, dia 18/10, promete ser daqueles programas inadiáveis ou imperdíveis. A menos que você seja um(a) poodle!

 
[1] comentário


Terence Machado é jornalista, baterista enferrujado, taurino, cruzeirense não-ortodoxo, louco por cinema, tarado por música, podia ter sido dono de alguma loja de discos mas, ao invés disto, acabou criando o programa Alto-falante. Ah, heterossexual, desde criança!
  • 09.11.2009
    A BATALHA DOS FESTIVAIS

  • 23.10.2009
    A MAIOR CANÇÃO BRASILEIRA

  • 16.10.2009
    TEMPESTADE E ARCO-ÍRIS

  • 27.09.2009
    O SANTO DE CASA E O MILAGRE

  • 18.09.2009
    "VOU ESPERAR SÓ MAIS UMA HORA"

  • 28.08.2009
    NOVOS VETERANOS

  • 24.08.2009
    ALGUMAS DOSES DE MORPHINE

  • 15.08.2009
    A PRAÇA É DO POVO

  • 15.08.2009
    QUEM É QUEM NO POP ATUAL?

  • 04.08.2009
    A CÉU É O LIMITE

  • 27.07.2009
    BOLACHONAS

  • 17.07.2009
    O ROCK FRANCÊS EM INGLÊS

  • 24.06.2009
    A CENA MONSTRO

  • 02.06.2009
    DOMINGO NO PARQUE

  • 31.05.2009
    RETOCAM RAUL!

  • 17.05.2009
    A VERDADEIRA DERROCADA DA INDÚSTRIA

  • 13.05.2009
    VOCÊ JÁ EXPERIMENTOU?

  • 19.04.2009
    LITTLE WAVE

  • 10.04.2009
    O AMADO ELVIS COSTELLO

  • 27.03.2009
    CHEGA DE SAUDADE

  • [mais]
     
    Programa Alto Falante no: Orkut  //  MySpace