“Vou esperar só mais uma hora, depois deste minuto de silêncio”, e então quero voltar a ouvir poesia cortante, guitarras igualmente letais e aquela percussão barulhenta dos infernos, num rock que só se viu e ouviu, no início dos anos 90, antes mesmo da ciência de Chico criar novos parâmetros para a tal cena alternativa brasileira. Antes dele e a Nação Zumbi tentarem assombrar e acordar a sonolenta e preguiçosa indústria fonográfica, curando também a ressaca provocada pela enorme chapação oitentista, um grupo mineiro, com raízes em Montes Claros, provou que não era preciso esperar mais nada pra unir som pesado (sem ter que pedir benção ao Sepultura) à letras diretas, concretas mais pela consistência e solidez das palavras e mensagens do que pela proximidade com o concretismo poético de Arnaldo Antunes.
O Virna Lisi ou, simplesmente Virna, como os admiradores carinhosamente passaram a chamar a banda, nasceu para contrastar a beleza da atriz italiana que emprestou nome à formação, com canções estonteantes e belas de uma outra maneira. A acidez, crueza e até feiúra sugerida em algumas ranhuras sonoras, grunhidos vocais e tantos outros elementos, que numa audição menos atenta poderiam atrair adjetivos pejorativos, sempre fizeram parte do “tombo” ou rasteira estética sugerida pelo Virna. Ao final de tudo, até a hiena ria! E com a boca cheia de sangue, fazia o circo natural do grupo parecer hospício. De palhaços ou falsos rock stars o mercado brasileiro já estava cheio, certo? O inferno então...
Com um contrato pra três discos abortado, antes de nascerem as duas últimas crias, isso em 1997, a banda se dissolveu. E parecia deixar o titulo do primeiro disco, gravado em 92, eternamente clamando por uma resposta – “Esperar o quê”. “O que diriam os vizinhos”? Era a segunda pergunta e disco que ficariam perdidos no ar e nos sebos de vinil? Questionamentos que nem um dos projetos posteriores de alguns dos integrantes responderia à altura por mais bem cuidado que fosse. Os vizinhos talvez dissessem que o Radar era funcional e preciso, mas não Tantã como “desnorteava” o nome. O The Paula seria um belo lado c de uma banda como o Virna que nunca deixou de ser um estupendo lado b, no mapa musical do Brasil. Seria cruel lembrar de César Mauricio pela capa de Siderado do Skank ou as letras doadas ao mesmo grupo. Ou pelos tantos gatos coloridos, chamativos e imponentes pintados por ele, sem poder escutá-lo vociferar suas canções e castigando seus instrumentos de percussão.
E agora, ao fim de uma década marcada por tanto revival de toda a natureza, desde a histórica reunião do Police à retomada do thriller real e assustador de Michael Jackson, com a tragédia promovendo um novo culto à vida e obra do artista, nada mais justo e proveitoso que o retorno da banda que apareceu na hora certa, acabou antes da hora e merece (e parece) querer voltar a qualquer minuto depois de vários anos de silêncio.
No último dia 06, durante uma apresentação da Bluesatan, nova banda de dois ex-integrantes do Virna Lisi - Ronaldo Gino e Luís Lopes – o vocalista Cesar Mauricio foi convidado a subir no palco e juntos tocaram “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo” e “Esperar o Que”, no que pode ter sido a primeira resposta rápida para tantas perguntas e possibilidades em aberto.
“Acho que não pode ser muito revival, não. A gente tem que trazer aquele espírito pra criar algo novo. Já rolou um ensaio recente e a vontade de tocar junto sem grandes obrigações é o que tem impulsionado esse reencontro”, garante Gino.
“Esperar o quê? Não vou mais esperar, não vou mais esperar, vou me desesperar!”
Terence Machado é jornalista, baterista enferrujado, taurino, cruzeirense não-ortodoxo, louco por cinema, tarado por música, podia ter sido dono de alguma loja de discos mas, ao invés disto, acabou criando o programa Alto-falante. Ah, heterossexual, desde criança!