No último fim de semana aconteceu em Recife mais uma edição do festival No Ar Coquetel Molotov, criado e produzido pelo combo de mesmo nome, responsável por um site, um programa de rádio e uma revista voltados ao mundo do indie rock. Neste ano, além de o evento ter mudado de local (da UFPE para o Centro de Convenções de Pernambuco), o público presente aumentou assustadoramente graças à crescente adoração dos pernambucanos pelos artistas suecos que constantemente visitam a cidade (fruto de uma vitoriosa parceria do Coquetel Molotov com a Embaixada Sueca), mas principalmente às duas atrações principais do evento: a sensação americana Beirut e uma dupla velha conhecida nossa: Lô Borges e Milton Nascimento.
Sim, você leu direito. A principal atração do segundo dia do festival mais indie do país foi a dupla de cantores, compositores e mitos mineiros, revivendo no palco a parceria que começou em 1972 no clássico disco Clube da Esquina e vem, ao longo dos anos, influenciando gerações e mais gerações. Mesmo assim, não pude deixar de ficar com a pulga atrás da orelha e com a pergunta que não quer calar na ponta da língua: Quando foi que Milton Nascimento e Lô Borges se tornaram indies?
Pois a resposta a esta pergunta estava ali, debaixo de meus olhos e ouvidos o tempo todo e nem era tão difícil de ser detectada. O povo pernambucano, em especial os cidadãos de Recife, sempre foram acostumados a conviver com a boa música. Voltando um pouco na história, podemos incluir aí nesse bolo o maracatu, o frevo e os ensinamentos ideológicos e musicais do mangue beat, que marcou profundamente a cena da cidade. Daí a se concluir que a presença dos dois ilustres representantes da boa música mineira à cidade nada mais foi do que uma celebração à boa música foi um pulo deveras pequeno. Dava gosto mirar os olhos das 3 mil pessoas presentes ao Teatro Guararapes e perceber a satisfação por estarem ali presenciando aquele momento histórico. Gente de todas as idades, raças, castas e crenças. Adolescentes, pré-adultos e gente de meia-idade juntos, cantando clássicos como Cais, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, Nada Será Como Antes e tantos outros.
E aí, depois de ver Milton e Lô serem ovacionados com urros ao final do show, um pensamento fica na cabeça: porque foi preciso ir até Recife parece ver esta mistura de público homenageando dois dos maiores cantores e compositores da música mineira, sendo que um deles já foi elevado à categoria de mito há um bom tempo? O que acontece com a nossa Minas Gerais, que insiste em deixar a imortal música do Clube da Esquina em segundo plano muitas vezes, preferindo valorizar coisas de fora que muitas vezes são meras cópias ou bebem nas fontes melódicas de Milton, Lô, Toninho Horta, Beto Guedes e tantos outros? Porque existe toda uma geração mais jovem que ignora a existência disso? São indies demais ou de menos?
Mais uma vez a resposta está aqui mesmo, debaixo dos nosso olhos e ouvidos e pode ser resumida por um ditto popular: santo de casa não faz milagre. Será sempre preciso ir para fora e perceber que a música mineira é sim valorizada. Será preciso olhar no fundo dos olhos de gente como Ana Garcia, Jarmeson Lima e Tathiana Nunes (o trio de produtores do No Ar Coquetel Molotov) para concluir que a boa música é atemporal e não vive de preconceitos.