VIVA LA VIDA LOUCA DE AMY WINEHOUSE

 

por Rafael Marques de Souza

Não quero que Amy morra. Antes de mais nada, não é nenhum apelo à vida, nenhum texto moralista sobre o amor, comunhão familiar, sobre a destruição das drogas e, em última instância, um ato altruísta. Ela pode morrer, um dia vai. Mas eu não queria agora, diante de holofotes, de paparazzis, diante de tanta atenção dispensada a ela na iminência de sua passagem para o além.

Porque, artisticamente, ela já está morta. Não sei precisar quando foi, mas certamente coincidiu com as incontáveis notas a respeito de sua vida desregrada, seus constantes retornos aos rehabs, suas apresentações polêmicas e chapadas. Mas nada disto tem mais a ver com a música. Sim, vou lembrá-los que ela era uma cantora, uma das promessas deste movimento de "Soul Revival". Lembram-se agora?! Era uma época onde ela fazia discos interessantes, meio derivativos é verdade (ora, é um revival, tinha que ser assim mesmo) mas isto ficou pra trás. E sua morte neste momento é o perigoso ato onde ela adquirirá,  post-mortem, o status de grande diva dos novos tempos, um talento sofrido que morreu prematuramente. Seus discos serão alçados ao status de obras-primas e as comparações com artistas que morreram prematuramente e/ou de forma trágica serão inevitáveis: Billie Holiday, Jeff Buckley, Sid Vicious.

Por falar em Vicious, o Sid, ele talvez seja o retrato mais próximo deste cenário patético a que um artista pode se encontrar no ápice da desgraça de sua existência. Vicious era um "espetáculo" para as massas da época e para os funéreos de plantão por suas demonstrações públicas de vida no limite. Ninguém se importava se ele errava uma nota em seu baixo. Ele era, aliás, um artista medíocre, entrou nos Pistols apenas pela polêmica de seu ser (pressão do empresário, claro). Não tinha a ver com música, ele nem pode ser associado ao disco que iniciou (ou escancarou pro mundo) o movimento punk, "Never Mind The Bollocks", porque não tocou uma nota sequer neste disco.

Wino, no entanto, não é o alvo das minhas reclamações. Não estou aqui falando que ela se entorpece, se destrói propositalmente para apenas chamar a atenção da mídia. Longe disto, ela é uma pessoa que realmente precisa de cuidados médicos. É, ao mesmo tempo, vítima e também uma das molas da engrenagem sórdida do showbizz, em que participam os frenéticos e imperdoáveis paparazzi, a família ausente e inepta, os abutres das gravadoras que apenas esperam a carniça dos restos mortais dela serem expostos para que lucrem com a história da grande diva decaída.

Os fãs entram neste mecanismo como a centelha da ignição. Não todos, claro, mas aqueles que esquecem do que define um verdadeiro artista e enaltecem mais seus atos que suas obras. Picasso era genial como artista, mas um traste como ser humano. Lou Reed também é outro exemplo de grande artista, mas uma pessoa intratável na "vida real". Billie Holiday não deve ser lembrada por sua vida degradada, mas como, apesar de tudo que passou, era uma intérprete excepcional. O fato de Amy ser uma junkie não a torna melhor ou pior artista, nem engradece ou diminui suas obras e parece que as pessoas têm se esquecido disto. Por isto, afirmo: deixem que ela descanse em paz.

 

Rafael a.k.a Mortonoquilo não exerce profissão de publicitário, apesar da formação. Rehab da cultura pop é recusado sem ressentimentos. Ele sempre lamenta por não ter vivido na década de 60 (pelo menos nesta semana) e o seu blog Clave Seus Ouvidos é uma tentativa de entrar neste século. Às vezes pensa conversar com Deus. Em algumas delas, descobre que na verdade está ouvindo On The Beach... nas outras, Ziggy Stardust.

  


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