por Lafaiete Júnior
Dois mil e oito dá seus primeiros passos e a música mais comentada do ano passado continua sofrendo injustiças mil. “Grupo de Extermínio de Aberrações”, dos goianos do Violins, integra “Tribunal Surdo” – desde já um dos maiores discos da história da música brasileira. Álbum conceitual como poucos artistas/bandas conseguiram ou mesmo tiveram a coragem de fazer: expor toda a mazela, a dor, o preconceito, a droga, o sangue, o racismo... enfim, toda a violência que nossa sociedade perfeitamente bela não consegue (ou não quer?) perceber. Isso tudo de maneira bem direta e visceral, sem máscaras, sem rodeio algum. Principalmente pelas letras que podem ser consideradas poesia em estado bruto. Justamente pelo fato de “Tribunal Surdo” ser um álbum conceitual que não se deve “analisar” qualquer canção desvinculada do conjunto da obra. Elas se complementam. Não dizem que violência complementa (gera) outro tipo de violência? Então, é mais ou menos por aí.
O Violins parece ser uma dessas pouquíssimas bandas predestinadas a escancararem as coisas, falar abertamente, abrir os olhos. Diferente de bandas emotivamente chatas que acham que todos os problemas da vida se resumem a dor de cotovelo. Como se isso não bastasse, famigeradas rádios FMs ainda fazem com que grande parte do público consuma esse tipo de “produto” goela adentro. E quando aparece uma música como “GEdA”, os puritanos acham que o mundo veio abaixo. Este já desabou há muito tempo, será que eles não ainda perceberam? Bem, se não, o Violins abre o jogo para esses que parecem viver em uma bolha protetora de todas as verdades citadas no primeiro parágrafo.
"Grupo de Extermínio de Aberrações” é, das canções de “Tribunal Surdo”, a que mais apanhou por muitos (foi até denunciada no Ministério Público) e mexe direto na ferida. É um soco - com soco inglês - bem no estômago. Daqueles que saem sangue até pelos olhos. Daquela violência típica de “Laranja Mecânica”, para a comparação ficar mais artística, fantasiosa, já que a realidade dói. A canção versa sobre um tal grupo de extermínio que, talvez em praça pública, mendigue alguns trocados perante uma sociedade para que, assim, acabem com todo “excesso” do mundo. “Excesso”? “Bichas e michês e pretos na TV, discípulos de Che, putas com HIV”. Não disse que a realidade dói? É difícil aceitar mas é a verdade. Ou vai dizer que essa frase entre aspas, infelizmente, não corresponde a algum tipo de preconceito/violência que você já leu, ouviu, presenciou ou sofreu por ai? Foi muito por causa desses versos que a música sofreu tanta violência, desde seu lançamento. Os puritanos que me perdoem, mas o buraco é bem mais em baixo! Crucificar uma banda por uma belíssima canção como “GEdA” é até mesmo falta de bom-senso. Uma música que procura escancarar um problema (entre milhares de outros) e também torná-lo patético. Como já disse o próprio Beto Cupertino, vocalista do Violins e autor da música – e, diga-se de passagem, um dos maiores compositores dessa atual geração da música produzida no Brasil.
O buraco é bem mais embaixo porque o que assusta mesmo é saber que nossos trocados, mascarados de impostos e que nem são tão trocados assim, servem para que aquele grupo da capital federal faça um verdadeiro troca-troca monetário. Exterminando quaisquer acusações e afrontando a moral de brasileiros dignos que, em grande parte, tentam sobreviver nesse lugar chamado Brasil, à custa do suor de seus esforços. Diferentemente dos engravatados. O que assusta mesmo é saber que pessoas ainda parecem viver com algum tipo de viseira direcional e não enxergam esses e outros problemas expostos em “Tribunal Surdo”. O que assusta mesmo é saber que pessoas não conseguem entender toda a ironia e o sarcasmo presentes em “Grupo de Extermínio de Aberrações”. O que assusta mesmo é saber que alguns parecem esconder esse mundo (real) de seus filhos. Compactuando com a criação de cidadãos alienados e inofensivos às garras do extermínio que o sistema causa na grande massa. E o que mais assusta é saber que são tantos os sustos que não vale a pena citá-los todos neste espaço. Mas em oposição a isso tudo, o que alivia mesmo é saber que alguns conseguem fazer arte com o dedo na ferida, tão engajada e necessária nos dias de hoje. Ah! E eu garanto que meus filhos agradecem por crescerem e terem que conviver com belas canções, discos e bandas como o Violins.
P.S. 1: Dê uma olhada nas famosas listas dos melhores de 2007 dos principais sites (sérios) de música do país e constate: “GEdA” foi unanimidade, assim como o próprio “Tribunal Surdo”, no quesito melhor canção/álbum do ano passado. Segundo Dary Jr., vocalista do Terminal Guadalupe, essa é a melhor música do rock/pop nacional desde “Perfeição”, da Legião Urbana. Quer elogio e bom-senso maior que este?
P.S. 2: Você consegue baixar “Grupo de Extermínio de Aberrações” no site da banda (www.violins.com.br). Só lembrando que é necessária a audição de “Tribunal Surdo”, na íntegra, para o bom entendimento da proposta do álbum/banda.
P.S. 3: A letra de “Grupo de Extermínio de Aberrações”, caso você ainda não saiba de cor, é esta:
Atenção, atenção!
Prestem atenção ao que vamos dizer
Nós somos o Grupo de Extermínio de Aberrações
de toda sorte que você possa conceber
vindo até vocês pra pedir
qualquer quantia que se possa fornecer
e eu garanto que seus filhos agradecem
por crescer sem ter que conviver
com bichas e michês
e pretos na tv
Tá faltando soco inglês
O estoque de extintor não chega ao fim do mês
Não to pedindo aqui fortuna pra vocês
A gente quer limpar o mundo de uma vez
Amigão, amigão!
Abaixa essa arma que é melhor para você
Nós somos o Grupo de Extermínio de Aberrações
e não viemos pra ofender
viemos receber sem medo de pedir pra vocês
qualquer quantia que se possa fornecer
e eu garanto que seus filhos agradecem
por crescer sem ter que conviver
com discípulos de Che
e putas com HIV
Tá faltando soco inglês
O estoque de extintor não chega ao fim do mês
Não to pedindo aqui fortuna pra vocês
A gente quer limpar o mundo de uma vez
E eu garanto que seus filhos agradecem por crescer
sem ter que conviver com bichas e michês
e pretos na TV, discípulos de Che
Putas com HIV.