por Rafael Marques

É notório e desapontante que os melhores registros de shows de David Bowie estejam em seus bootlegs. Não levo em conta seus BBC´s Sessions neste caso pois, convenhamos, estas apresentações não servem como parâmetro e não podem ser comparadas a shows genuínos. Ajudando a corrigir este erro crasso, a EMI lançou "Live at Santa Monica '72" que acaba se consolidando dentre os lançamentos oficiais como o melhor registro de Bowie ao vivo, não tão somente da fase Glam-Rock, como também o melhor disco ao vivo de sua carreira até então.
Enquanto "David Live" encontra Bowie num momento transitório da carreira, afundado em anfetaminas e com uma banda ainda desentrosada nos novos arranjos de Blue-Eyed Soul, "Stage" é acometido de uma frieza e distância incomuns para uma apresentação ao vivo, o que empalideceu rendenções fora do estúdio dos clássicos "Low" e "Heroes". Além disto, o som fraco, inofensivo e mal distribuído da trilha de "Ziggy Stardust" acaba sepultando uma apresentação importantíssima historicamente (quando Bowie "mata" sua persona Ziggy para o grande público e banda). "Live at Santa Monica '72" não foi uma apresentação com qualquer motivo especial (como fora o show final de Ziggy) mas daí reside sua força: é um testamento de uma banda que mostrava exuberância, peso, entrosamento e regularidade durante maior parte de suas apresentações na "Ziggy-Era" e qualquer show daquele período poderia ilustrar muito bem o quanto que Bowie e seus Spiders From Mars eram poderosos e imponentes.
O set-list é perfeito e sintetiza muito bem o que foi o Glam-Rock na Inglaterra (ou a forma como Bowie idealizou e forjou o estilo à sua maneira): belo, épico e grandioso e, ao mesmo tempo, sujo, decadente e promíscuo. O show incluiu músicas que vão desde o single irretocável "Space Oddity" até o clássico "Rise and Fall of Ziggy Stardust", passando pelo hard rock com tons psicodélicos de "The Man Who Sold The World" e o caleidoscópio pop, afetado e andrógino de "Hunky Dory". E de bônus o público recebeu uma prévia de "Aladdin Sane", conhecendo uma versão nervosa e rápida de "Jean Genie", além de uma inusitada e introspectiva cover de Jacques Brel em "My Death".
Mick Ronson é o maestro dos Spiders from Mars e o acompanhante ideal para o Camaleão nos momentos acústicos, como em "Space Oddity" e "Andy Warhol". Notem o quão natural é a mudança de "humor" de sua guitarra em "Moonage Daydream", passando de acentos esparsos e melódicos para um ataque pungente no refrão e depois para as dissonâncias do solo. Ou ainda como ele consegue acrescentar peso à "Changes" de uma forma que a versão original não possui. A cozinha formada por Trevor Bolder (baixo) e William Woodmansey (bateria) é sólida e precisa. Ouçam o petardo rápido de "Hang on to Yourself" ou a marcha solene psicótica de "Five Years" e tirem suas conclusões. A banda contou com a participação do pianista Mike Garson, que, se não iguala em técnica a Rick Wakeman, pelo menos não prejudica o andamento das músicas e conseguiu fazer uma releitura interessante da exuberante e grandiosa "Life on Mars", dando um ar mais intimista e um sabor "cabaret" à música.
Não é, no entanto, um show sem falhas. Alguns erros são perceptíveis, como quando notadamente Bowie esquece a letra de "Suffragette City", ou o engraçado descompasso dos integrantes no começo de "John, I´m Only Dancing". Contudo, estes erros importam apenas para nos lembrar que aqueles alienígenas andróginos, lascivos e espalhafatosos eram surpreendentemente humanos.

Rafael a.k.a Mortonoquilo não exerce profissão de publicitário, apesar da formação. Rehab da cultura pop é recusado sem ressentimentos. Ele sempre lamenta por não ter vivido na década de 60 (pelo menos nesta semana) e o seu blog Clave Seus Ouvidos é uma tentativa de entrar neste século. Às vezes pensa conversar com Deus. Em algumas delas, descobre que na verdade está ouvindo On The Beach... nas outras, Ziggy Stardust.