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DISSECANDO SKYLAB

por: Thiago Pereira
13.06.2007

Skylab e o fã Lobão: "dizem que sou louco..."

Skylab foi a primeira estação espacial norte-americana que alcançou a órbita sideral. Mas desde que o funcionário público carioca Rogério Tolomei assumiu este sobrenome, ele vestiu também a (desconfortável?) roupa de maldito maior da música brasileira atual. Skylab tem um fã-clube repleto de bacanas: Lobão, os veteranos jornalistas Maurício Valadares e Fábio Massari, além de uma cadeira cativa no programa do Jô Soares a cada vez que lança um novo trabalho. Mas ele não tem turma, não faz parte de um movimento, não carrega nenhuma bandeira. É possível que a coisa mais solene que ele tenha feito na vida seja um certo “Hino nacional do Skylab”, cuja letra impublicável – onde carinhosamente chama de vagabundos o presidente e a própria esposa-dê uma boa noção da territorialização do músico. Skylab é um artista sozinho.

Mas como todo maldito, possui um fiel grupo de seguidores, que delira a cada aparição no talk show global e superlota as comunidades virtuais dedicadas a ele. Assistir as suas apresentações é mais do que acompanhar um simples show: é um processo sociológico. Skylab no palco deixa a estranha sensação de servir como um filtro para que meninas púberes, estudantes de física, metaleiros, punks ou boyzinhos de shopping botem para fora toda a – o termo não é o melhor, reconheço - escrotidão que lhes é permitida. Skylab é para todos.

Foi sob o signo de todas essas contradições que marquei meu primeiro encontro com ele, num parque de diversões aqui em Belo Horizonte. Entre uma volta no carrinho de bate-bate e um passeio no trem-fantasma, ele ia dissecando -e agora não existe termo melhor – o personagem Skylab. “Minha obsessão é com o que é serial... Skylab só repete... repete... Repete “, ele... Repetia. Na época (2004) ele estava lançando o ótimo “Skylab IV”, com uma safra de músicas, como “Música Para Paralítico” e “Parafuso Na Cabeça”, que se tornariam favoritas dos fãs. Naquele mesmo dia, se apresentou em um extinto programa jovem da capital mineira e, convidado pela desavisada apresentadora (a mesma que agora trabalha no popular Ídolos) pra “cantar uma de suas músicas”, recitou os versos nada sutis de “Puta”, quase causando a demissão dos produtores da televisão, que pertencia a Igreja Católica.

Foi deste encontro que estabeleci minha definição particular de sua obra, e repito aqui. Se “de perto, ninguém é normal”, a máxima caetânica chega as últimas conseqüências em Skylab. Seu trabalho consiste em exumar boa parte das loucuras inconscientes de todos, ora com ironia elegante (“Dinheiro”, “Eu Quero Saber Quem Matou”) ora de forma visceral (“IML”, “Cocô”) muitas vezes resvalando no puro non sense como na polêmica e genial “Fátima Bernardes”, que explode no refrão “Glória Maria!”Soa como uma versão trash daquilo tudo que Nelson Rodrigues eternizou em suas obras, a vida como ela é. No caso de Rogério Skylab, esta existência também é habitada por ratos, mortos-vivos, franksteins pós-modernos... Suas músicas possuem um certo realismo fantástico, la vie em close, já diria Paulo Leminski-aliás, possível companhia de Zé do Caixão, Arrigo Barnabé, Frank Zappa, o Caetano de “Araçá Azul” entre outros em uma lista de referências.

Ele acaba de lançar “VII”, trabalho que entra na lista dos melhores discos de Skylab. Talvez por condensar todas as qualidades descritas no parágrafo anterior, mas também por continuar garantindo um trabalho único, um corpo estranho na MPB, que, pode apostar, ainda vai se tornar tema de documentário ou alguma tese acadêmica amalucada. Enquanto esse dia não chega, o jeito é esperar o derradeiro disco da série, o “X”. “Quem sabe não será feito só de gritos e sem nenhum texto?” insinua/ameaça Skylab. Quem conhece sua obra sabe que é possível. E ainda assim fará algum sentido.

Abaixo, Skylab fala sobre seu novo disco, “XII”

AF: As capas de seus discos sempre são uma atração à parte-você aparecendo travestido ou enfaixado, pássaros mortos e até mesmo um feto já mereceu esta honra. Com o "VII" achamos que você foi longe demais: um cachorrinho? Ficamos chocados!

Vocês ficaram chocados? (risos). Foi clicado na rua. Um vira lata sem eira nem beira. Assim como eu. Eu quis que nessa série dos SKYLABS houvesse uma sucessão de imagens - máscaras, atrás das quais não houvesse ninguém. É um pouco a estória das múmias: você tira as gazes e atrás delas não há rosto, não há ninguém. Cada capa de um SKYLAB é isso.

AF: O disco novo passa a impressão de estar sendo mais bem executado musicalmente, capturando com maior cuidado a performance da banda. É a mesma turma dos discos mais recentes?

A banda é a mesma desde o SKYLAB IV. Alguns, como o violonista, tocam comigo desde o primeiro SKYLAB. Mas esses SKYLBS são como um "work in progress" - o meu som vem se transformando desde o primeiro. É a idéia de laboratório. É também o método TENTATIVA E ERRO. Como um cego em tiroteio, eu vou tentando... Cada disco tem os seus erros e acertos. Talvez seja esse o maior mérito da série: sem nenhum grande produtor por trás, eu vou tentando, eu vou experimentando...

AF: Qual é a sua relação com o samba? Em quase todos os seus trabalhos existe um samba, ou alguma referência ao gênero...

Bem, eu acho que qualquer coisa que eu faça é samba. Até quando eu componho um rock experimental, no fundo, eu estou fazendo mesmo é samba.

AF: Uma das músicas mais interessantes-poéticamente, em especial-é "Corpo e Membro Sem Cabeça". Como pintou essa idéia de criar uma lista de impossibilidades? O que te inspirou?

O esloveno Evgen Bavcar, talvez tenho sido a primeira grande fagulha. Pensei também numa "cantora muda". Paradoxos e ao mesmo tempo "impossibilidades". Um dos meus grandes temas é o IMPOSSÌVEL. Trabalhar com arte é de uma certa forma flertar com o Impossível. E isso não tem nada a ver com as Utopias. Muito pelo contrário: isso é pragmático.

AF: "Eu Chupo Meu Pau" me lembrou Sonic Youth...Procede?

Você fala que "EU CHUPO MEU PAU" lembra Sonic Youth e isso muito me orgulha. Talvez uma das minhas bandas preferidas. Mas nessa música, ao lado de um ar noise, tem também um construtivismo, principalmente no texto.

AF: Já a "Última Valsa" faz referência ao "Last Waltz", o documentário do Scorcese sobre o show final do The Band?

Na verdade a grande inspiração de A ÚLTIMA VALSA  foi mesmo Tom Waits. Não é difícil de crer, basta ouvi-la. Esse cara é outro que de uma forma ou de outra está sempre presente no que eu faço.

AF: Parece existir uma certa divisão em seu trabalho: músicas que têm um apelo poético muito forte, um cuidado grande em relação ao texto e aquelas mais sintéticas, que parecem direcionadas ao palco e acabam se tornando as favoritas dos fãs...É pensado isso?

Eu não penso nisso. Algumas músicas fazem parte de um grupo que eu denomino "músicas mínimas". É o caso de EU TO PENSANDO (SKYLAB V), HEI MOÇO JA MATOU UMA VELHINHA HOJE, O PRIMEIRO TAPA É MEU, HERBERT VIANNA (ainda não gravada), SEM ANESTESIA (ainda não gravada). Canções em que a idéia é mais importante que o texto e que a música.

AF: Me lembro de ter te encontrado no Tim Festival do ano passado, você na grade, acompanhando o show do Marcelo Birck (ex-guitarrista da cultuada banda gaúcha Graforréia Xilarmônica)...Ele batizou uma música com seu nome! Depois de homenagear tanta gente, como você se sentiu?

Estive conversando agora com o Birck e perguntei a ele que idéia era essa de música com o meu nome (nem eu sabia). E ele me explicou que era uma música, ou parte dela, que ele havia me passado para fazermos em parceria. Músicas do Birck são algo de especial. Eu adoro. E aí vai uma notícia em primeira mão: no SKYLAB VIII, duas parcerias já estão sacramentadas: esta com o Birck e uma outra com o Diego Medina. Vai ser minha homenagem ao pessoal do sul. Só falta mesmo confirmar a produção do Kassim.

AF: "Skylab VII" é recheado de parcerias, fale um pouco sobre elas. Tem o pessoal do Zumbi Do Mato, que é uma banda que parece bastante próxima de você em conceito e tal; e tem o Maurício Pereira (ex-Mulheres Negras, onde fazia dupla com André Abujamra), mais inusitado...

Quanto às parcerias, na verdade tem apenas cinco neste disco, de um total de 18 músicas. Não são tantas parcerias assim. Mas é uma novidade: nenhum disco meu anterior contem parceria. Neste disco, três parcerias são com o Zé Felipe, baixista e produtor do Zumbi do Mato. E uma música é em parceria com o ex-tecladista do ZUMBI. Não fica difícil imaginar a admiração que eu tenho por essa banda. Existe inclusive um projeto, terminada a série, de fazer todo um disco em parceria com o Zé Felipe. Vamos ver.

Quanto ao Maurício Pereira, tudo começou com um disco solo dele em que ele e sua banda tocavam velhos sucessos da MPB. Pirei. Muito bom. Novos arranjos pra velhos standarts. Mandei um email pro figura, elogiando-o. Em seguida, ele me mandou todos do Mulheres Negras (que eu já conhecia) e mais dois solos: NA TRADIÇÃO e MERGULHAR NA SURPRESA. Esse último foi suficiente pra me tornar um fã incondicional de seu trabalho. Como eu tinha um projeto de um disco feito todo em parcerias, pedi uma música. Ele me mandou três, uma melhor do que a outra. Escolhi uma, pus a letra e a melodia... E essa música acabou se transformando em O MUNDO TA SEMPRE GIRANDO, uma das que eu mais gosto do disco. Quanto estive agora em Sampa lançando o SKYLAB VII lá, cantamos juntos, assim como no disco. Ficou lindo.


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Thiago Pereira é pai da Maria , cruzeirense ortodoxo, dj semi-amador, portador de gagueira e língua presa, além de jornalista nas horas vagas. Gosta muito dos jeffs tweedy e buckley, de ruivas, de cerveja e de papo furado.Năo é o homem da gravata florida, embora gostaria de sę-lo. Ah, muleke!
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