Hora de receber um e-mail do pessoal do Queremos.com.br dizendo que não obtive o reembolso integral do ingresso para o show do Kurt Vile, hora de dizer como foi o show do Kurt Vile, no Rio de Janeiro, Circo Voador, abrindo para o moleque-idoso do Thurston Moore, que apesar de ser o dono da noite, pra mim era o secundário.
Quando anunciado que o Thurston viria ao Brasil apresentar seu disco novo e que trazia consigo o Kurt Vile, meu novo ídalo juvenil, cai pra trás. Não cria que teria a oportunidade de ver esse cantor, que em pouquíssimo tempo de conhecimento me tirou do sério e virou dono do meu coração e referência absoluta em “a melhor música do mundo desde que ouvi Wilco há 9 anos atrás”. E quando o show foi anunciado no Rio se duzentos cariocas empolgados topassem comprar as 200 cotas, corri pra internets e comprei a minha, afinal nasci em Juiz de Fora, o que me faz bastante carioca para ser um empolgado.
Enfim, no dia do show, enquanto o samba comia solto na Lapa, lotando bares, empolgando turistas - o que é compreensível - e empolgando cariocas como se estes fossem turistas - o que me parece estranho - o Circo pouco se enchia de gente com as tradicionais roupas de roqueiros e indienistas (estampas de Strokes, John Coltrane, Sonic Youth, Stone Roses...), e eu, que me vesti de turista (chinelas, bermuda e camisa de botão desabotoada), ficava aflito pensando “- Que merda, vai dar pouca gente e não vou conseguir ter meu ingresso reembolsável reembolsado...”, ao mesmo tempo que refletia como de fato o Rio não é uma cidade rock, apesar do Rock in Rio, dos Stones em Ipanema e do Barão Vermelho. Afinal, tudo bem que ninguém tava dando a mínima pro Kurt Vile, mas pô, o Thurston Moore tava ali por míseros 70 contos! Praticamente um show solo do Keith Richards (foda-se, tô comparando eles dois mesmo) sem lotação máxima.
Samba mesmo meu povo... e vai vendo onde isso vai dar...
Enfim, o show começa, e tá lá ele, magrelo, com cara de menino de 20 e poucos anos, com a cabelera escondendo a cara, branco, dedões sobre as cordas da guitarra e violão, mandando aquelas músicas boniiiiiitas ao lado da sua banda, formada por um bando de esquisitos cabeludos com caras de banana: um guitarrista com rosto, corpo e atitude de um menino de 18 anos recém-completos, outro guitarrista com cara de nerd em instrumento musical daqueles que sabem tocar tudo em qualquer coisa, e um baterista com jeitão de ser meio tapado, como todo bom baterista é.
As músicas gravadas são sensacionais, ouçam os discos, são lo-fi em grande maioria, do tipo que às vezes é até difícil de ouvir, mas são de uma beleza daquelas que os ótimos cantores folk americanos sabem fazer, e ao vivo, elas surpreendem por se manterem lindas, mesmo sem todos os detalhes de timbres e ritmos que têm nos discos, que são um aspecto importante da obra do Kurt. No palco elas são executadas com bastante clareza, o domínio da banda com as guitarras e efeitos é notável, e Kurt canta pra caceta, fazendo todos os climas vocais das músicas sem perder nada, dá uns berros, sussura, declama e canta na mesma música, sem alterar o volume.
No palco ele emociona demais, mesmo sendo paradão. No setlist, On tour, Ghost Town, Freak train, Heart attack e Peeping tomboy. Teve bem muito mais, e foi tudo muito bom e bem tocado, num clima formal mas sem script, com afinação de guitarra o tempo todo e troca de intrumentos entre os músicos. Inclusive momentos emocionantes eram quando Kurt conferia a afinação tocando o inicio do riff da próxima música, e as poucas cabeças que conheciam as canções ficavam gritando e comentando que "não acredito que agora ele vai tocar essa".
Foi um sonho a oportunidade de ver o rapaz por aqui, classudo demais o trampo dele ao vivo. Quando acabou rolou um ahhhhhhhh bem consistente, e ele voltou pra tocar In my baby arms, sempre sério e formal, bicho do mato. Por fim o público que ia chegando atrasado ia vendo o show e prestando atenção, mas não aconteceu do cantor empolgar a galera que não o conhecia ao ponto de o final ser apoteótico e dele sair nas graças do povo. Mas parece que ele não é deste tipo: emociona sem tocar num pingo de hormônio ou rebeldia típicos de bandas que levantam o público com guitarras insanas e baterias malucas. Ele só se apoia em músicas bonitas.
Depois do show, com ele dando pinta entre o público, e um primo que me acompanhava foi lá agradecer por ele ter vindo. Eu não fui falar com ele, não me senti apresentável, mas me senti satisfeito.
Bem, depois do show dele teve o Thurston Moore, que foi destruidor, putaqueopariu, vocês imaginam não é? Então.
E por fim, fica a vontade de criar uma ONG chamada "Volta Kurt!". Quem quiser me chama que eu presido.
Bjo